Meu niver - 11.fev.2006
Oi.
Hoje eu poderia falar da eliminação vergonhosa do Brasil na Copa.
Poderia falar sobre o babaca do jogador Bruno.
Poderia, na verdade, falar de mil coisas diferentes. Mas só vou falar sobre um assunto: MINHA MÃE.
A cor preferida dela era azul, de todos os tons. O time dela era o América, e sempre zoava, que tava lá na série Z, ou algo do tipo. Mas gostava mesmo era de um futebol bem jogado! Falava palavrões e gírias. A mamãe era apaixonada pela Lua. E pela noite. Ela me ensinou que loira de amarelo "fica tudo da mesma cor". Por isso, tendo sido loira boa parte da minha vida, nunca gostei de amarelo. Ela me ensinou que "mim é índio" e que eu não "truxe" nada. Ela me ensinou a jogar Batalha Naval, que de vez em quando jogávamos (o dia em que eu contei pra ela que já tinha roubado no jogo algumas vezes, ela ficou puta, e encucou com isso até o final da partida... rsrs) . Minha mãe relutou em comprar minha primeira Barbie porque achava que eu deveria brincar com coisas que exercitassem a minha criatividade. Nunca dormia sem passar creme Nivea nos lábios. Ela organizava os CDs: primeiro por estilo, depois por dupla/cantor/cantora/grupo e então em ordem alfabética. Todos os móveis de casa são milimetricamente calculados em suas posições. Copo em cima do vidro ou da madeira, nem pensar! "Cadê o porta-copo, Marifernanda?"
Minha mãe, muito "doida", como ela mesma se chamava, pegou uma mascarazinha de Carnaval de uma fita k-7 (+- uns 2cm) e transformou em 18 máscaras grandes (+- 50cm) feitas em papel-camurça, pra enfeitar meu aniversário de 16 anos. Ela era apaixonada por ferramentas. Tinha trena e várias chaves de fenda na gaveta da copa. Fez questão de me dar um alicate e um martelo quando eu morava sozinha, porque "podia precisar". Enquanto outras mulheres ficam loucas em lojas de roupas, papelarias, lojas de sapatos, minha mãe enlouquecia em lojas de ferramentas! Sempre comprava alguma coisa, nem que fossem uns parafusos e umas buchas. Ela fazia controle de saldo todo mês. Nunca atrasava uma conta. Na verdade, pagava com muita antecedência ou punha logo no débito automático pra não ter preocupação. Não tinha a menor noção de preço: dava R$50 por algo que custava, no máximo, uns R$10. Só andava de táxi (a última vez em que ela andou de ônibus, ainda era solteira - e lá se vão mais de 35 anos). Era a rainha do delivery: fazia tudo por telefone ou pelo Zé Ricardo, o motoboy. Adorava contar histórias dela e da família e sabia boa parte da nossa genealogia.
Mamãe aprendeu a tocar acordeon aos 9 anos de idade! (Procure saber, é muito foda de tocar!) Aprendeu a costurar ainda era novinha, também. Os trabalhos de escola que tinham algo de artístico ela fazia o dela e o da irmã. E ficavam perfeitos! (Tem aqui em casa dois quadros que ela fez.) Sabia fazer tapeçaria com agulha mágica (Tem duas aqui que ela fez também. Depois posto fotos). Ela desenhou vários dos móveis daqui de casa. Conservava e cuidava muito bem deles. Mantinha guardados os "manuéis" de instrução de tudo o que comprou. Era difícil dar um presente pra ela, mas mesmo se não usasse, guardava todo bonitinho. A mamãe tinha várias caixas: uma de cartas, cartões e bilhetes, uma de "coisinhas" que ela guardava desde a infância, uma caixa de fantasias e outra de roupas da época de solteira (que sempre me salvaram nas festinhas), caixa com imposto de renda, com os "manuéis", com contas e notas fiscais....... Muitos vinis, fotografias e compactos simples e duplos. (Dizia que eu poderia "jogar essa tralha toda fora" depois que ela morresse...) Isso tudo EXTREMAMENTE organizado (isso ela até tentou me ensinar, eu é que não aprendi). ----> Fui pensar depois que a organização dela mais parece a "Lei do Menor Esforço"... rsrsrs <---- Minha mãe me levou a um cirurgião plástico quando eu era bebê porque achava que eu tinha orelhas de abano.

Eu, gorducha, no colo dela
(fev. 2007)
Ela me ensinou tudo o que eu sei sobre música e educou meu ouvido, me apresentando algumas das melhores coisas que o mundo já fez em matéria de música. Ela me transmitiu seu amor à música. E duas das paranóias dela comigo eram relacionadas a isso: eu devia ter uns 2 anos, ela sentava do meu lado e cantava comigo as musiquinhas dos meus disquinhos, pra assim, educar também a minha voz; e me pegava pra dançar, pra que eu aprendesse a ter ritmo. Minha mãe guardou vários "CDs" da época de solteira (CD = Compacto Duplo, com 2 músicas de cada lado, diferente do Compacto Simples, que tinha só uma música por lado). Da hora em que acordava até a "hora do MGTV", ficava ouvindo Antena 1. Depois passou a ouvir a Alvorada das 17h às 19h. Tinha uma voz linda, apesar de sempre achar que estava "horrível". Fazíamos uma dupla em "Sem Fantasia" (do Chico), com canto e contra-canto que ficava linda! Uma vez aqui em casa, cantamos "Amigo É Pra Essas Coisas" do MPB-4, que, infelizmente, não foi fotografado nem filmado. Ficou só na lembrança de quem esteve presente e se emocionou assim como eu. A música preferida da mamãe (entre tantas outras) era "Something", do George Harrison. Nos últimos 3 ou 4 anos, estava apaixonada por Michael Bublé, por causa de "Home". E no seu último ano, apaixonou-se por Jason Mraz por causa de "I'm Yours" ("Gracinha, né, gêêêntche?") . As pessoas que conviveram com ela em seus áureos tempos, a associam a "Besame Mucho". ("Ó! A música da Regina!!") Ela tinha vários LPs e CDs (disc laser, tá?) do Ray Conniff (que eu demorei a gostar, de tanto que ela ouvia). E toda vez que ela punha o disco pra tocar, dava aquela dançadinha sozinha (pondo a mão no estômago, sabem?) ou cantarolava com uma voz gravona... Amava "(I've Got You) Under My Skin", tinha várias versões. Ficou doida atrás do CD com esta versão da Carly Simon. Ouvindo a "Dantena", como ela chamava, conheceu e gostou de "Riders on the Storm" do Doors (adorava o barulhinho da chuva) e me pôs doida pra achar o CD, que custei a encontrar, mas achei a trilha do filme, mais cara que o habitual.
Minha mãe era uma pessoa com o coração infinitamente maior que ela. Fazia amizade com todo e qualquer tipo de gente. Nunca teve preconceito de qualquer espécie. Apreciava o bom caráter das pessoas. Todos os meus amigos que a conheceram a adoravam, mas ela definitivamente não gostava de todos os meus amigos que conheceu. Era apaixonada pelo pessoal da favela do lado do IBGE. Festeira como só ela, toda sexta-feira ficava na lanchonete em frente à FUMEC, onde conheceu vários estudantes de Engenharia Civil, que logo passaram a frequentar nossa casa. Ela "adotou" a Eliene, uma das estudantes, que morou lá em casa por quase um ano e virou minha irmã mais velha. A mamãe era determinada e dedicada. Quando resolvia pegar algo pra fazer, ficava sempre perfeito (ou o mais próximo possível disso). Depois de se formar em Pedagogia pela PUC-MG foi dar aulas em Caeté, entre outros lugares. As alunas dela sempre a viram como exemplo. Ela foi a professora escolhida pelas alunas do Magistério pra viajar, pois era a mais animada, participativa e extremamente responsável. Os funcionários que trabalharam com ela no IBGE sempre a elogiaram muito. E mais do que qualquer outra coisa, minha mãe era simplesmente a pessoa mais inteligente que eu já conheci! Sabia falar sobre todo e qualquer assunto. Discutia política horrores e adorava uma polêmica. Era muito radical nas opiniões (apesar de sempre dizer que detestava radicalismo), geralmente com certa dificuldade pra aceitar opiniões contrárias à dela. A primeira característica marcante que minha avó (mãe dela) e meu pai citaram quando perguntei foi a inteligência da mamãe.

Esta cara é de quem tá pensando sobre
alguma bobagem que alguém disse...
(fev.2006)
A turma dela da faculdade não quis Baile de Formatura, então ela e umas amigas entraram na "vaquinha" do pessoal da Educação Física e foram todas pra Buenos Aires e Mar del Plata. O único lugar no exterior, inclusive, pra onde ela foi. Dizia que não tinha a menor vontade de conhecer os Estados Unidos, mas era apaixonada por San Francisco sem saber porquê. Quando fui pros EUA da última vez, fiz questão de ir à Frisco por ela (ainda bem que fui e ela viu as fotos, meu Deus!). Adorava Cilada, A Diarista, Os Normais, Retrato Falado, TV Pirata... Quando achava alguma coisa muito engraçada, chegava a chorar de tanto rir!
Minha mãe investiu em mim em todos os aspectos. Quando eu era pequena - acho que nem era alfabetizada ainda - comprou o "Stillitron", um método de aprendizado de inglês que na época era super moderno e inovador, cujo funcionamento ela tentava entender pra me explicar. Ela também investiu e acreditou no meu amor pelo inglês. Quantos filmes de locadora, dicionários, cursos... Quando eu tinha 15 anos, minha mãe vendeu o carro que tinha pago no consórcio durante anos (novinho, direto da concessionária) pra eu poder viajar pros EUA e estudar por um mês. Aos meus 27 (diga-se de passagem, amanhã faz exatamente 3 anos deste dia), ela veio me falar que "agora podia pagar uma viagem pros Estados Unidos pra eu aprimorar meu inglês". E bancou toda a minha loucura, que durou 71 dias e custou +- R$25 mil (super prestações, descontos e facilidades! rsrsrs).
Minha Marucha não era perfeita, muito pelo contrário. Era muito intolerante, brava, ansiosa, ciumenta, meio paranóica com algumas coisas, bebia e fumava muito, me bateu horrores e xingou de coisas inacreditáveis. Mas tivemos muitos momentos sensacionais, especiais e inesquecíveis, em que eu fazia palhaçada pra ela rir ou vice-versa; quando jogávamos Batalha Naval, Mau-Mau (ou Mal-Mal? - ela saberia responder) ou Scrabble; nas vezes em que sentávamos no chão, cada uma com sua breja (a dela, geralmente, quente) ouvindo música e trocando idéia; nas raras vezes em que assistíamos juntas a algum filme discutindo a respeito; quando íamos pro Minas no sábado de manhã pra passar o dia todo; quando eu ia pro IBGE e ficava na sala dela fuçando tudo; sempre que viajávamos, que ela levava uma "matula", e às vezes parava pra comprar alguma coisa na estrada... São muitas as lembranças boas que guardei da mamãe... Muitas mais do que as que citei aqui. Mas nem todas vêm à mente agora. Assim como não há espaço suficiente...
Minha mãe - usando um adjetivo dela - faz uma falta desgraçada!! Em tudo! Às vezes me pego no ímpeto de comentar com ela sobre alguma música ou programa de tv, como eu fazia. A casa ficou muito grande e muito bagunçada sem ela aqui. Ela fez falta pacarai agora na Copa, que nem teve graça sem a animação e gritaria dela (como gritava e torcia quando via futebol! Aff!). Nem preciso falar que ela fez falta nos meus pós-ops e no fim da radio/quimio. Até a chamação que ela arrumava faz falta: "Marifernaaaaaanda..." E, ao mesmo tempo, já me acostumei à "presença da ausência" dela (algo que eu nunca tinha entendido).
Cara, vou falar só uma última coisa: apesar de tudo, minha mãe era foda! Criativa, inteligente, determinada, dedicada... Fez tudo por mim e mais um pouco, abriu mão de muita coisa em prol dos outros (e se ferrou na maior parte das vezes). "Não conseguiu terminar de montar a casa"... Mas sei que ela está bem, linda, iluminada, sendo bem-cuidada e se preparando. Se preparando pro dia em que vai poder reencarnar pra ensinar, aprender, crescer, evoluir... tudo... mais uma vez.
Amo minha mãe demais!!!!!!! Saudade dela demais!!!!!!

É isso.
Beijos da Blogguerreira saudosa
MaFê (como na faixa que ela fez, onde surgiu o apelido)
=8:' (
*PS.: O nome no post, Marucha, era o apelido pelo qual um dos meus tios-avós a chamava quando criança. Lê-se "marutcha"










10 comentários:
Lindas memórias, MaFêzinha! Coisas boas de lembrar e guardar para sempre no seu coração amoroso e sensível. Eu não sabia tanta coisa assim da Marirregina e fiquei surpresa em descobrir que 'teríamos' muitas coisas em comum, a vida é que não ofereceu a chance. Tem uma música, acho que do Erasmo, cantada pela Nana Caymmi -liiiiinda!- que me lembra a minha mãe e o que sinto hoje, 4 anos depois que ela partiu "por outros assuntos". Ouça e me conte o que achou. Beijos na sua alma, minha linda!
Eu de novo! Digo para você ouvir a música e não conto qual é: chama-se Não se esqueça de mim!
pô fadinha!!Nao tive oportunidade de conhecer sua mãe pessoalmente mas deu pra conhecer muito da dela!! bju amiga
saudaaades
Continue sempre escrevendo,faz muito bem à nossa alma.Beijos.
Tal mãe, tal filha!
Vc COM CERTEZA é a fodinha!!
Lindo o post!!
Beijo
*ainda não esqueci que vc tem que me contar o final da história (de LA, da menina com a vodka!)
Oiii mafe, vc escreve muuuuito, continue assim!!!maravilhoso este post
Nossa Senhora, parecia que eu estava ouvindo a Regininha falar. Amo vocês duas!
Um RT do Bonner me trouxe aqui, e seu post me fez chorar, ao som de "Sem Fantasia" - que eu amo!!!
Me deixou com ainda mais saudade da minha mamãe, e lembrando dessas coisinhas que a gente guarda na memória e morre de saudade :/
Oi.
Como você escreve bem. E melhor, como vc traduz em emoção as palavras.
Adorei conhecer um pouquinho da sua vida e sua luta porque não dizer!
Agradeço o convite para conhecer seu Blog que espero não deixe de lado. Me parece que te faz tão bem.
Bjs H
Menina Fernanda, antes de tudo parabéns pelo seu estilo de escrever. Lindo e perfeito o seu texto. Pude "ver" sua mãe em cada linha que você escreveu. Pude compreender mais um pouco as várias reações dela. E quanta saudade dela seu texto me trouxe! Ela foi uma das mulheres que mais mexeu com meus sentimentos. Fiz faculdade por causa dela. Quando a conheci ela já tinha faculdade e eu apenas um curso técnico. Fiz faculdade pra ver se me nivelava mais a ela. Gastou tempo pra eu perceber que não era esse o caso. Mas ainda assim, ela me ajudou muito, pois estudar foi muito bom pra mim em outros aspectos. Ela me fez um grande benefício mesmo sem querer. O riso fácil e verdadeiro dela é inesquecível. E seu jeito de ficar brava também. Muito obrigado por me enviar o texto e me proporcionar a chance de me lembrar dela ainda mais profundamente. Foi uma pena ela ter partido tão cedo. Seria ótimo, eu acho, encontrá-la de novo. Se ela já voltou, quem sabe né? Beijão pra você, Fernanda. E parabéns, de novo, pela sua escrita.
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